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Sobre Viver: Transformando Dor em Esperança

Serviços de Apoio ao Luto: como renascer após as perdas irreparáveis

O luto e as redes sociais: Um novo modo de expressão

Uma ótima e breve reflexão sobre o uso e a importância das redes sociais no luto!

As redes sociais são uma importante ferramenta de expressão da contemporaneidade. Os recursos, nelas oferecidos, possibilitam que o usuário se comunique por meio de fotos, músicas, textos, vídeos e outros, que facilitam a expressão de sentimentos e compartilhamento de acontecimentos diversos vivenciados ou não por ele.

As pessoas encontram na internet uma maneira fácil de se expressar, pois quando encontram alguém que está passando por uma situação semelhante, visualizam nisto a chance de receber apoio e oferecer apoio. Morte e luto são temas cada vez mais presentes nas redes sociais.

Os usuários compartilham diversos aspectos sobre os temas, como por exemplo a comunicação do falecimento, informações sobre o ritual de despedida e expressão de sentimentos como tristeza, dor, saudades e outros. Um dos motivos para que os usuários compartilhem na internet um momento delicado como a perda de um ente querido é que o suporte emocional pode ser oferecido via…

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‘O brilho do bronze’

por Roberto Pompeu de Toledo

9788540508491Que dizem as lápides? Muita coisa. Para bem entendê-las pode-se começar analisando-as pelo brilho do bronze. Há as limpas, bem polidas, e as opacas e sujas. Anda-se pelo cemitério e vai-se distinguindo entre as abandonadas, condenadas a uma segunda e provavelmente definitiva morte, e as que reluzem de vida. O Brilho do Bronze é o novo livro do historiador Boris Fausto – ultimamente desdobrado em autor de livros de memórias e, desta vez, de um diário, cujo elemento central é a lápide num túmulo do cemitério do Morumbi, em São Paulo. Nas muitas visitas ao cemitério, o autor do diário se demorará diante da lápide, examinará cada um dos seus contornos, passará ternamente os dedos no nome ali inscrito, letra a letra. Trará flores para enfeitá-la. Contratará um funcionário para que a mantenha sempre brilhante. A lápide não é, definitivamente, só uma lápide. A certa altura, escreverá: “Não consigo e nem quero pensar que há ali apenas um memorial. Prefiro pensar que, de algum modo, nos comunicamos com muito amor”.

 Na lápide está escrito: “Cynira Stocco Fausto”. É com ela que Boris Fausto imagina continuar, dessa forma, se comunicando. A educadora Cynira foi por meio século mulher de Boris, e o diário se inicia em 17 de julho de 2010, um mês depois da sua morte. (Morte, não – falecimento. “É melhor escrever falecimento do que morte”, diz o autor. “A morte é definitiva, o nunca mais, o never more. Falecimento lembra desfalecimento, saída de cena temporária.) Boris Fausto, a essa altura, está a cinco meses de completar 80 anos. Cynira era um ano mais nova. (Era? Ele diz que tem dificuldade com esse tempo de verbo.) O diário que ele está começando, e que se alongará pelos três anos e meio seguintes, será o diário de seu luto. As saídas ao cemitério terminam em aflição. “Como posso deixar a Cynira ali, abandonada em meio ao sol, ao calor e à chuva? Corre um vento frio. Como vou abandonar você, Cynira, menina do interior, sempre friorenta?”

Só o fato de o autor se dispor a escrever um diário – o primeiro na vida, desde uma efêmera tentativa na adolescência – já diz muito do desespero de tentar engolir essa patacoada de de repente uma pessoa desaparecer, e não uma pessoa qualquer, mas a mais importante, a que nos acompanha e nos completa, e de em consequência nos legar o peso de reiniciar a vida como um amputado, que além de amputado é um perplexo – como pode? Como foi isso acontecer? Alguém aí explica? O livro é belo e comovente, singelo e ao mesmo tempo profundo. A gravidade do tema da finitude, da mulher e, ao fim e ao cabo, do próprio autor – que se diz, na língua do futebol, já “na zona do rebaixamento” -, é compensada pela pena leve e pelo humor. Boris se diz horrorizado com os padres que, em missas de sétimo dia, afirmam já estar o falecido na eternidade, contemplando a face de Deus. “Cruz-credo, o vazio do tempo, o infinito, olhos fitos na divindade – sem pestanejar?”

Viuvez de homem parece mais difícil de suportar que a de mulher. Não que a mulher não sofra igualmente; a diferença é que elas “se adaptam” melhor, digamos assim. A mulher tem intimidade mais visceral com a vida e com a morte. Elas não só dão a vida; estarão sempre mais próximas dos doentes, darão a mão aos moribundos e, nos velórios, estarão mais junto ao morto. Os homens são mais desajeitados numa trajetória que vai do ato de carregar um bebê ao de aproximar-se docaixão de um defunto. Acresce que, até pela evidência estatística de que é mais frequente os maridos morrerem primeiro, as mulheres como que estão mais “preparadas” para a nova situação. Boris Fausto começa por implicar com a “horrível” palavra “viúvo”. Quando teve de declinar num documento, pela primeira vez, o novo estado civil, sua mão tremeu.

O almoço solitário, em casa, o travesseiro vazio ao lado, ao despertar, a falta da companheira no sofá, diante da televisão, compõem um cenário que não parece real, não pode ser verdade. Num fim de domingo Boris imagina que o telefone vai soar e Cynira lhe dirá que ele foi um bobo. “Tudo não passou de brincadeira, e você sofreu tanto. Já, já volto para casa e vamos dormir juntos no melhor momento do dia.” Em outra ocasião sonha que Cynira precisava falar com Paulo Renato. “Quando digo que Paulo Renato morreu, lamenta muito e me pergunta por que eu não lhe havia contado antes. Sem graça, digo que aconteceu no período em que ela “desaparecera”. O livro de Boris Fausto não quer ensinar como superar nada, felizmente. O autor é inteligente demais para esse papel. Só quer insistir em como é duro aceitar que uma pessoa querida possa sumir de vez.

 

Pensando com Jung

mandala-pintada-por-jung-fonte-livro-vermelho-256x300Vida e morte devem manter em tua existência o equilíbrio. As pessoas de hoje precisam de um grande pedaço de morte, pois coisa incorreta demais vive nelas, e coisas corretas demais morrem nelas. Correto é o que mantém o equilíbrio, incorreto é o que destrói o equilíbrio. Mas atingido o equilíbrio, então é incorreto o que mantém o equilíbrio e correto o que o destrói.

Equilíbrio é vida e morte ao mesmo tempo. Da perfeição da vida faz parte o equilíbrio com a morte.Quando aceito a morte, reverdece minha árvore, pois a morte intensifica a vida. Se eu me concentro na morte global, meus botões se abrem. Quanto nossa vida precisa da morte!

A alegria nas menores coisas só vem a ti quando tiveres aceito a morte. Mas se olhares vorazmente para aquilo que ainda poderias viver, teu entretenimento não é grande o suficiente para ti, e as coisas menores que ainda te cercam não são mais alegria para ti. Por isso encaro a morte com simpatia, pois ela me ensina a viver.


Carl Gustav Jung, no Livro Vermelho, p. 237

 

A água é fonte de vida

por Maris Stella

Entregue suas tristezas e lamentos às águas de renovação. Existe um percurso a conquistar. A lição da água ensina, diante das dificuldades, precisamos aprender a encontrar caminhos onde as circunstâncias colocam obstáculos.

Morrer é mais difícil do que parece

por Paulo Varela Gomes

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Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.

São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.

Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.

Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.

Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.

Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.

Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.

Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”

Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.

Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos.

Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.

A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.

Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer.

As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.

Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…”

Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?

A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.

Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.

O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães.

Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde.

E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado.

Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta.

As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe.

Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.

Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.

O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se.

Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.

Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?

Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore.

Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.

Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:

“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.

S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015

Paulo Varela Gomes,

Peço que respondam essa pesquisa por favor, pois o resultado é muito importante para melhorar meu trabalho como terapeuta.

Muito obrigado,

Maris Stella

Terapia do Luto

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por  J. William Worden

” – O processo de luto é necessário?” “- Sim!” “Depois que alguém passa por uma perda, há certas tarefas do luto que devem ser realizadas para que seja restabelecido o equilíbrio e para que seja completado o processo de luto. ”

Tarefa I: Aceitar a Realidade da Perda : “Quando alguém morre, mesmo se a morte é esperada, há sempre a sensação de que ela não aconteceu. A primeira tarefa do processo de luto é enfrentar a realidade de que a pessoa está morta, de que a pessoa se foi e não irá retornar. ” (…) O oposto de aceitar a realidade da perda é não acreditar por meio de algum tipo de negação.”

Tarefa II : Para Elaborar a Dor da Perda : ” Muitas pessoas sentem a dor física e a dor emocional e comportamental associada à perda . É necessário reconhecer e elaborar esta dor ou ela se manifestará por meio de alguns sintomas ou por outra forma de conduta aberrante.”
“A negação desta segunda tarefa, de elaborar a dor, é não sentir. (…) “abolir os sentimentos e negar a dor presente .”Algumas vezes as pessoas escondem-se do processo evitando pensamentos dolorosos .” “Idealizar o morto, evitar lembranças dele e fazer uso de álcool ou drogas são ainda outras formas pelas quais as pessoas não concluem a Tarefa II.”
” Um dos objetivos do aconselhamento do luto é o de ajudar a facilitar a passagem das pessoas por esta segunda tarefa de forma que elas não carreguem a dor por toda a vida. ”

Tarefa III : Ajustar-se a um Ambiente Onde está Faltando a Pessoa que Faleceu : “Ajustar-se a um ambiente significa coisas diferentes para diferentes pessoas, dependendo de qual era a relação com a pessoa falecida e dos vários papéis que desempenhava a pessoa que morreu.”
“A estratégia de redefinir a perda de modo que ela possa redundar num benefício para a pessoa que fica frequentemente faz parte de uma execução completada da Tarefa III.”
” O luto pode levar a uma intensa regressão na qual a pessoa enlutada percebe a si mesma como desamparada, inadequada, incapaz, infantil ou com uma crise de personalidade.”
” O impedimento da Tarefa III é não se adaptar à perda. As pessoas trabalham contra elas mesmas promovendo seu próprio desamparo, ao não desenvolverem habilidades das quais necessitam ou se retirando do mundo e não enfrentando exigências do ambiente. Entretanto, muitas pessoas não têm esta evolução. Elas geralmente decidem que necessitam desempenhar os papéis para os quais não estão acostumadas, desenvolvem habilidades que nunca tiveram e andam para a frente com um sentido de mundo reavaliado.”

Tarefa IV: Reposicionar em Termos Emocionais a Pessoa que Faleceu e Continuar a Vida : “O luto tem uma tarefa física precisa a cumprir : sua função é deslocar os desejos e lembranças da pessoa que sobreviveu da pessoa que faleceu. ” (Freud,1913).
Worden cita Volkan, dizendo que o luto termina quando a pessoa enlutada não tem mais a necessidade de reativar a representação do falecido com intensidade exagerada no dia a dia .
“A tarefa do conselheiro não é a de ajudar o enlutado a desistir de sua relação com a pessoa que faleceu , mas a de ajudá-lo a encontrar um local adequado para o falecido em sua vida emocional – um lugar que irá capacitá-lo a continuar a viver bem no mundo. ”

Quando o processo de luto termina ?

“(…) o luto está terminado quando uma pessoa pode reinvestir suas emoções na vida e no viver .” “(…) quando as pessoas readquirem interesse pela vida, sentem-se mais esperançosas, mais gratificadas e se adapam a novos papéis.”

Manifestações de luto normal

Sentimentos : tristeza; raiva (precisa ser adequadamente reconhecida); culpa e auto-recriminação (geralmente é irracional e diminui o teste de realidade); ansiedade; solidão; fadiga; desamparo; choque; anseio ; emancipação; alívio (especialmente quando o falecido estava doente e sofria); estarrecimento.
Segundo WORDEN, J. William ” todos os itens representam sentimentos normais do luto e não há nada patológico em nenhum deles . Entretanto, sentimentos que existem por longos períodos anormais de tempo e de excessiva intensidade podem prever uma reação de luto complicada.

Sensações físicas associadas às reações agudas de luto : vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização, falta de ar, fraqueza muscular, falta de energia, boca seca.
Além destas citadas por Worden (1998), temos observado durante atendimento clínico a pessoas enlutadas , sensações de tontura, de hiperativação dos esfíncteres, ataques de “engasgo” e/ou de rinite. Às vezes o corpo fala e a pessoa nem se dá conta. À medida que consegue expressar através da fala os sentimentos com os quais estava evitando contato, as sensações físicas tendem a diminuir.

Cognições : Pensamentos de descrença, confusão, preocupação, sensação da presença, alucinações, são comuns nas primeiras fases do luto e geralmente desaparecem depois de pouco tempo. Se eles persistem levam a sentimentos que podem desencadear depressão e ansiedade.

Comportamentos : associados a reações normais de luto, em geral desaparecem por si só com o tempo : distúrbios do sono (dificuldade em conciliar o sono ou despertar precoce); distúrbios do apetite (tanto de comer excessivamente quanto de comer pouco); comportamento “aéreo”; isolamento social; sonhos com a pessoa que faleceu ( tanto sonhos bons quanto sonhos estressantes ou pesadelos); evitando coisas que lembrem a pessoa que faleceu; procurando e chamando pela pessoa; suspiros; hiperatividade; choro; visitando lugares ou carregando objetos.

As tarefas que J. William Worden apresenta “implicam no fato de a pessoa enlutada necessitar agir e poder fazer alguma coisa. Implica no fato de o luto poder ser influenciado pela intervenção externa. A abordagem de tarefas dá ao enlutado algum sentido de alavanca e esperança de que haja algo que ela possa efetivamente fazer. Este pode ser um poderoso antídoto para os sentimentos de desamparo que tem a maioria das pessoas enlutadas.

CHAVES PARA O AUTOCONHECIMENTO E A CURA-Conhecendo a Terapia dos Florais

Recomendo com muito carinho esta publicação.

Parabéns, equipe de A Luz é Invencível!!

A Luz é Invencível

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Quem trabalha com a terapia floral descobre a beleza e a maravilha de ver seres humanos transformados, reencontrados e mais auto-conscientes. Terapeutas florais bem formados e experientes têm ciência da ação notável das essências florais em seres humanos, animais e até em plantas.Os resultados efetivos da terapia floral têm sido comprovados não só pelos especialistas da área, como por uma ampla gama de profissionais, como médicos, dentistas, pedagogos, psicólogos, entre outros. Mesmo veterinários e criadores de animais têm utilizado, com muito sucesso, a terapia floral no tratamento de animais domésticos e selvagens.A Organização Mundial da Saúde (OMS), que é uma importante agência da ONU, declarou em 1978, na Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, que “Cada remédio trata uma determinada pessoa e uma condição particular. O uso de todos estes remédios (as essências florais) está amplamente distribuído pelo mundo em uma pequena escala. Eles são excelentes para…

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Manual para Reprogramação Mental: O Segredo do Subconsciente


por Maris Stella
criar-realidade

Sobreviver transformando um momento difícil em esperança para novos tempos requer uma forte dose de boa vontade e esforço. Através de técnicas como a PNL é possível reprogramar a mente para enfrentar e superar os desafios.

Neste guia a Terapeuta Holística Simone El Hage produziu de forma didática e fácil uma metodologia para ajudá-lo a compreender como funciona a Reprogramação Mental e o que ela realmente pode fazer por você.
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