por Roberto Pompeu de Toledo

9788540508491Que dizem as lápides? Muita coisa. Para bem entendê-las pode-se começar analisando-as pelo brilho do bronze. Há as limpas, bem polidas, e as opacas e sujas. Anda-se pelo cemitério e vai-se distinguindo entre as abandonadas, condenadas a uma segunda e provavelmente definitiva morte, e as que reluzem de vida. O Brilho do Bronze é o novo livro do historiador Boris Fausto – ultimamente desdobrado em autor de livros de memórias e, desta vez, de um diário, cujo elemento central é a lápide num túmulo do cemitério do Morumbi, em São Paulo. Nas muitas visitas ao cemitério, o autor do diário se demorará diante da lápide, examinará cada um dos seus contornos, passará ternamente os dedos no nome ali inscrito, letra a letra. Trará flores para enfeitá-la. Contratará um funcionário para que a mantenha sempre brilhante. A lápide não é, definitivamente, só uma lápide. A certa altura, escreverá: “Não consigo e nem quero pensar que há ali apenas um memorial. Prefiro pensar que, de algum modo, nos comunicamos com muito amor”.

 Na lápide está escrito: “Cynira Stocco Fausto”. É com ela que Boris Fausto imagina continuar, dessa forma, se comunicando. A educadora Cynira foi por meio século mulher de Boris, e o diário se inicia em 17 de julho de 2010, um mês depois da sua morte. (Morte, não – falecimento. “É melhor escrever falecimento do que morte”, diz o autor. “A morte é definitiva, o nunca mais, o never more. Falecimento lembra desfalecimento, saída de cena temporária.) Boris Fausto, a essa altura, está a cinco meses de completar 80 anos. Cynira era um ano mais nova. (Era? Ele diz que tem dificuldade com esse tempo de verbo.) O diário que ele está começando, e que se alongará pelos três anos e meio seguintes, será o diário de seu luto. As saídas ao cemitério terminam em aflição. “Como posso deixar a Cynira ali, abandonada em meio ao sol, ao calor e à chuva? Corre um vento frio. Como vou abandonar você, Cynira, menina do interior, sempre friorenta?”

Só o fato de o autor se dispor a escrever um diário – o primeiro na vida, desde uma efêmera tentativa na adolescência – já diz muito do desespero de tentar engolir essa patacoada de de repente uma pessoa desaparecer, e não uma pessoa qualquer, mas a mais importante, a que nos acompanha e nos completa, e de em consequência nos legar o peso de reiniciar a vida como um amputado, que além de amputado é um perplexo – como pode? Como foi isso acontecer? Alguém aí explica? O livro é belo e comovente, singelo e ao mesmo tempo profundo. A gravidade do tema da finitude, da mulher e, ao fim e ao cabo, do próprio autor – que se diz, na língua do futebol, já “na zona do rebaixamento” -, é compensada pela pena leve e pelo humor. Boris se diz horrorizado com os padres que, em missas de sétimo dia, afirmam já estar o falecido na eternidade, contemplando a face de Deus. “Cruz-credo, o vazio do tempo, o infinito, olhos fitos na divindade – sem pestanejar?”

Viuvez de homem parece mais difícil de suportar que a de mulher. Não que a mulher não sofra igualmente; a diferença é que elas “se adaptam” melhor, digamos assim. A mulher tem intimidade mais visceral com a vida e com a morte. Elas não só dão a vida; estarão sempre mais próximas dos doentes, darão a mão aos moribundos e, nos velórios, estarão mais junto ao morto. Os homens são mais desajeitados numa trajetória que vai do ato de carregar um bebê ao de aproximar-se docaixão de um defunto. Acresce que, até pela evidência estatística de que é mais frequente os maridos morrerem primeiro, as mulheres como que estão mais “preparadas” para a nova situação. Boris Fausto começa por implicar com a “horrível” palavra “viúvo”. Quando teve de declinar num documento, pela primeira vez, o novo estado civil, sua mão tremeu.

O almoço solitário, em casa, o travesseiro vazio ao lado, ao despertar, a falta da companheira no sofá, diante da televisão, compõem um cenário que não parece real, não pode ser verdade. Num fim de domingo Boris imagina que o telefone vai soar e Cynira lhe dirá que ele foi um bobo. “Tudo não passou de brincadeira, e você sofreu tanto. Já, já volto para casa e vamos dormir juntos no melhor momento do dia.” Em outra ocasião sonha que Cynira precisava falar com Paulo Renato. “Quando digo que Paulo Renato morreu, lamenta muito e me pergunta por que eu não lhe havia contado antes. Sem graça, digo que aconteceu no período em que ela “desaparecera”. O livro de Boris Fausto não quer ensinar como superar nada, felizmente. O autor é inteligente demais para esse papel. Só quer insistir em como é duro aceitar que uma pessoa querida possa sumir de vez.

 

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