por Maris Stella

Atualmente existem duas novelas em exibição onde o tema do luto materno estão presentes em personagens centrais das tramas: Êta Mundo Bom e Velho Chico. As narrativas de ambas são diferenciadas e acontecem em tempos e condições históricas bem distintas, como distintos também são as origens desses lutos representados e a possibilidade de seus desfechos.

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foto: TV Globo

Em “Êta Mundo Bom”, a jovem e rica Anastácia tem seu filho recém nascido tirado à força de seu convívio e à ele é atribuída uma morte biológica nunca aceita pela mãe. A personagem torna-se permanentemente enlutada, mas apesar de sua dor pessoal,  é uma mulher amorosa de aparência frágil e ingênua. Seu objetivo de reencontrar seu filho a coloca como alvo das manipulações de seus sobrinhos que pretendem ser seus únicos herdeiros.

 

Na novela Velho Chico, Encarnação é uma mulher forte, de temperamento explosivo.

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foto: TV Globo

Quando o filho primogênito, Inácio, morreu afogado no rio São Francisco, tornou-se amargurada e rancorosa trancada em um luto eterno e solitário menosprezando a relação com o marido e o seu segundo filho, Afrânio, com quem nunca conseguiu estabelecer uma relação afetiva positiva projetando sobre ele todas as suas dores e frustrações expressas em autoritarismo e desprezo.

Duas vivências femininas e opostas nas expressões de seus lutos. Mulheres sofridas e presas em suas experiências de perdas. No entanto, enlutar-se é estar de mudança e ambas histórias evidenciam um apego ao sofrimento e resistência ao novo, o que pode induzir ao telespectador a empatia com o engano. O processo do luto é  normal e inevitável, mas quando o luto passa a ser uma companhia inseparável, se desvia para um caso patológico a necessitar de cuidados.  Porém, conforme dito acima sobre essas representações, há distinções.

 

No caso da Anastácia, há uma possibilidade colocada do reencontro físico entre ela e o filho, pois esse é um gancho importante com o qual o autor mantém seu roteiro e a atenção do telespectador. Portanto, os percursos pelos quais esse reencontro será efetivado irá explorar ao máximo todas as nuances possíveis até o desfecho final que também irá finalizar o luto mental da personagem.

Para Encarnação, o contexto é outro. Muito embora, o corpo de seu filho nunca tenha sido encontrado, a mãe entendeu a perda como definitiva passando a cultuar sua memória de forma persistente e doentia mantendo seu quarto e pertences intocados até que o pai resolve por mandar lacrar o ambiente. Para Encarnação, é uma segunda morte tornando ainda mais difícil sua vivência interna e de relação familiar demandando em um comportamento mais autoritário e violento.

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