por Camila Goytacaz, a mãe eterna do José

capa No dia 4 de junho deste ano me vesti com uma roupa que gosto muito, me despedi dos meus dois filhos, de seis e três anos, deixando-os aos cuidados dos avós, para cumprir uma missão inédita, difícil e, ao mesmo tempo, muito especial: dar minha primeira palestra sobre luto perinatal.

Escolhi contar aqui cinco percepções que, durante a minha fala na palestra, senti como realmente relevantes para quem está próximo de uma família que perdeu (um bebê, neste caso, mas vale para outras perdas) – e quer oferecer apoio.

Estas são algumas das questões que surgem: como acolher a pessoa que perde? Como fica sua rotina? O que machuca? O que ajuda e o que atrapalha? Que recursos ela pode usar para se restabelecer? Principalmente – o que os profissionais que a acompanham – sejam médicos, doulas, pediatras, terapeutas, podem fazer para que ela se sinta melhor?

Nesta palestra, o foco foi na perda perinatal e uma terapeuta especializada me deu apoio durante a explanação, fazendo importantes considerações do ponto de vista profissional sobre as particularidades do luto para a mãe durante o puerpério. Mesmo que não se trate de um bebê, vale refletir para entender como é aquilo que eu chamo de ‘travessia do deserto do luto’.

1) O luto é cheio de perdas
Comecei a palestra dizendo como aquilo era novo para mim. Como jornalista e Consultora de Comunicação, há mais de quinze anos palestras, cursos e workshops fazem parte da minha rotina profissional. No entanto, desta vez, o tema envolvia minha vida, meu luto, meu livro Até Breve, José. Senti medo de não dar conta. Vesti a coragem (assim como cito no livro) e com o coração aberto, falei deste e de tantos outros medos que José me trouxe. Falei também da superação, contando a minha experiência com o filho que perdi.

Muitas vezes a mulher que perde um bebê (seja aborto, perda intraútero, óbito fetal ou perda perinatal) acaba experimentando outras perdas sequenciais. Há um afastamento dos profissionais que a acompanhavam e os conhecidos repentinamente a evitam – representando assim abandonos. Os amigos se afastam e ela não pertence mais aos grupos de antes. Dói demais! Por isso, é preciso fazer o possível para oferecer acolhimento, proximidade, atenção e carinho a quem perde. No caso da mãe e bebê, muitos se concentram no bebê que partiu ou no fato ocorrido e deixam de olhar para a mulher que ficou. Por favor, cuidemos desta mãe!

2) O luto é lento
Há uma grande pressa em resolver tudo e “sumir” com aquela história, dando um fim aos ‘rastros’ do bebê, como o enxoval ou retomando rapidamente as atividades rotineiras. Vamos com calma! Os objetos representam o filho que perdemos e tornam-se amuletos e memórias para a mãe, por isso é preciso tempo para que ela possa escolher o que e como quer manter. É reconfortante reconhecer a importância destes símbolos e é preciso deixá-la à vontade para seguir seu ritmo com a retomada da rotina.

Respeitar o tempo da pessoa para elaborar, considerando que o processo não é linear (ora melhor, ora pior) deixa a travessia um pouco mais leve.

3) Seja solidário de verdade

Esqueça os protocolos, ofereça apoio sincero. Há uma total incapacidade de nossa sociedade de lidar com o luto e com os enlutados, por uma grande falta de sensibilidade que se aloja em dois extremos: o das pessoas que simplesmente silenciam e o das que falam demais. Os profissionais podem – e devem – seguir uma conduta humanizada especialmente no momento da despedida e das más notícias e os amigos e familiares podem chegar mais perto! Embora seja uma experiência particular para cada pessoa, todas precisam ser acolhidas e respeitadas em seus processos. Para mim, o não-falar e o afastamento estão relacionados ao medo do outro em lidar com a nossa dor. Todos, todos mesmo, têm alguma experiência com perdas ou superação de dificuldades, seja de que ordem for. Quando eu falo da minha dor e da minha história, acesso a dor e a história de cada um. Juntos podemos (e conseguimos) visitar também a força do amor e da fé na vida que nos resgata do fundo do poço.

4) Mais leveza, por favor
Nestes quatro anos lidando com o tema, já coleciono centenas de histórias, completamente variadas em contextos, enredos e finais, inclusive algumas terminam bem mas todas trazem algo em comum: nos lembram de nossa fragilidade perante a morte e de nossa força perante a vida. Em alguns momentos da palestra, involuntariamente, arranquei risadas da plateia. Foi muito bom! Por isso, vale lembrar: o luto é triste, mas não precisa ser tão pesado. Há espaço para a esperança, para o riso e até para boas descobertas. No fundo, é um processo engrandecedor.

5) Precisamos ler, falar e ouvir sobre luto

Em meio a um fluxo contínuo de palavras que saíam da minha boca, de repente percebi que o auditório inteiro chorava. A emoção coletiva me mostrou algo que eu não esperava: houve um tempo em que achei que as pessoas não gostariam de ler ou ouvir sobre luto e sobre morte. Eu estava errada! Neste dia, em minha primeira fala sobre este tema árido, eu vi um solo fértil. Tive certeza de que, não apenas as pessoas querem ouvir, como também precisam muito, muito mesmo, de um espaço para falar. A palestra terminou com um auditório emocionado, sorrindo e chorando.

A lista de interessados em fazer perguntas ou compartilhar depoimentos e as abordagens que recebi pelos corredores depois do encontro me confirmam que é preciso falar abertamente sobre luto. Só assim vamos quebrar os tabus, tirar as cascas, deixar nossa prepotência de lado, sair do piloto automático e da cultura da falsa felicidade para então, quem sabe, entrarmos dentro de nós mesmos, naquele lugar que parece tão escuro, mas que na verdade é especial, porque nos oferece oportunidade de evolução e nos torna mais próximos uns dos outros, por meio da dor e da superação.

Precisamos falar sobre luto. Hoje e sempre.

Fonte: Brasil Post

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